Relato sobre os meus 6 anos de cabelo crespo

Abril é um mês muito especial para mim, porque foi nesse mês que eu fiz o meu Big Chop (o grande corte para retirar a química dos fios alisados e voltar à textura natural). Até aqui se passaram seis anos e o meu cabelo crespo me ensinou muito sobre mim. Por isso, hoje eu resolvi inspirar você compartilhando uma linha do tempo fotográfica desse período.

Seis anos atrás, eu nem imaginava que o meu cabelo tornaria um dos maiores pilares para a minha comunicação na internet. Tudo que eu descobri através desse autoconhecimento se tornou partilha desde o momento em que eu reservei um cantinho na nuvem chamado TIPO4. Esse cantinho foi crescendo e junto com ele eu fui evoluindo gradativamente.

cabelo crespo tipo4 4c

A nossa comunidade me fortaleceu muito após a transição capilar e o big chop, então nada mais justo que rever tudo isso com você. Vamos?

Estamos em 2015: o ano da decisão

cabelo crespo curto

Antes de cortar o meu cabelo desse tamanho que você está vendo na foto, eu lembro exatamente qual era a sensação: impaciência! Sabe quando alguém te conta que “todo mundo tem medo do escuro” ou que “é impossível não gostar de chocolate”? São coisas que parecem verdades universais, mas ninguém sabe ao certo quem inventou. E assim eu me sentia: seguindo o medo de fazer o BC porque alguém tinha dito que 8 meses era pouco tempo em transição capilar.

8 meses, para mim, foi tempo suficiente para me sentir exausta dos processos de texturização. Tempo suficiente para morrer de curiosidade em relação à minha textura natural. E, sem dúvidas, foi tempo suficiente para entender que eu não tinha nada a perder, afinal nem todo mundo tem medo do escuro. Então eu cortei!

Estamos em 2016: conhecendo a mim e ao meu cabelo crespo

cabelo tipo4 fotos

Foi nesse ano que eu aprendi o que significava fator encolhimento, textura, curvatura, day after e todos esses termos que em breve se tornariam comuns. Mas foi também em 2016 que o TIPO4 começou a crescer regionalmente.

Eu era uma das poucas criadoras de conteúdo negras na cidade de Caruaru-PE, consequentemente uma das poucas que falava sobre cabelo crespo, beleza e moda a partir das nossas vivências. Era chegada a hora de estudar, aprender e tomar domínio para trazer um conteúdo cada vez mais apurado e profissional. Por isso, eu gosto de dizer que o TIPO4 cresceu junto comigo. Nos tornamos potentes juntos e nos ajudamos ao longo do processo: eu e meu projeto, como se fossemos um só, ao lado dessa comunidade crescente.

Estamos em 2017: percebendo a representatividade do cabelo crespo no ambiente digital

porque falar sobe representatividade do cabe e crespo no meio digital

Beleza e moda sempre foram temas inspiradores para mim, mas me ver neles, já era uma outra história. Eu fui a criança apaixonada por revistas que sonhava em ser jornalista e viver nesse mundo utópico de uma estagiária em filme de NY. Então a minha realidade tratou de me trazer à tona, me mostrou que não havia espaço para mim e silenciou aquela trilha sonora empolgante. Desde então, as minhas batalhas sempre estiveram marcadas no campo do que era possível, não do que era inspirador.

Mas em 2017, apenas dois anos após o corte que me motivou a escrever esse relato, eu me vi novamente nesse lugar. Seria então a minha chance de experimentar um café com gosto de correria na redação? Eu também já havia iniciado a faculdade de Jornalismo e imagina que loucura, parece que o impossível não era tão impossível assim. Nessa época eu me lembro do quanto me senti sozinha, muitas vezes invisibilizada e até questionada.

Aos poucos eu movimentei o cenário e este foi o ano que eu OCUPEI. Eu me fiz presente em todos os ambientes que não foram feitos para uma mulher como eu, dentro da minha realidade. Fiz com que lembrassem do meu nome. Eu sonhei de novo e então cresci.

Estamos em 2018: saindo da zona de conforto

crespo é lindo

Faltavam somente alguns meses para enfim me dizer jornalista, a vida de de criadora de conteúdo cada vez mais consolidada e aparentemente estava tudo sobre controle, exatamente como uma boa capricorniana fazia questão de assegurar que estivesse. Mas ainda não era tudo! Eu me senti sufocada pela vida que levava, pelos planos que tinha e as perspectivas de futuro. Então em 2018 eu fiz uma das mudanças mais loucas e incertas da minha vida: chegou a hora de viver na capital.

Mudei para Recife com os olhinhos brilhando, mas era impossível trazer na mala toda a credibilidade e relevância que eu tinha conquistado em Caruaru. Portanto, me vi obrigada a começar praticamente do zero! Agora a conversa pode parecer ter tomado um tom mais distante do nosso foco, mas não se engane, eu ainda estou falando de cabelo (também).

A relação com o meu cabelo também estava pautada nas interações que eu tinha a partir dele. Muitos dos elogios, as trocas em grupos ninchados, os encontrinhos, eventos íntimos com pessoas que eu já conhecia: tudo isso ficou. Me reconstruir em uma nova cidade, bem maior e que exigia de mim um novo estilo de vida, sendo mulher preta, LGBT e crespa, foi desafiador.

E então eu me vi novamente apegada ao ambiente virtual, como lá em 2015, de um jeito curioso, enfrentivo e potente. Mais uma vez, o TIPO4 e automaticamente o meu cabelo crespo, se tornaram canais de comunicação com o mundo ao meu redor. E veio o título de embaixadora.

Estamos em 2019: ganhando o mundo

confiança empoderamento e o cabelo crespo

O ano de 2019 já começou especial! O meu trabalho sendo reconhecido nacionalmente através do título de Embaixadora Bio Extratus, uma marca que já se relacionava com o TIPO4 desde 2015. Além disso, os espaços em Recife se tornavam cada vez mais acessíveis e a confiança e autoconhecimento, trazidos pelo meu cabelo crespo, cada vez mais lapidados. Foi neste ano que o meu trabalho me levou para fora do país.

Estamos em 2020: defendendo as características do meu cabelo crespo

Até aqui eu já havia me aprofundado em discussões que estavam além do meu cabelo crespo. O que significa ser mulher negra, nordestina, LGBT… e como a minha textura agrega leituras raciais a essas discussões? Eu já tinha começado a construir essas respostas, mas foi no ano de 2020, em um cenário pandêmico inimaginável, que outras questões surgiram.

As diferenças entre os fios crespos e cacheados, tecnicamente, eu já conhecia e a forma como cada uma das curvaturas era recebida em uma sociedade racista, também já estava no meu campo de visão, eu sentia na pele. Por isso, ficou mais fácil de entender a lógica aplicada pelo sistema que buscava hierarquizar as texturas: era mais uma prática racista tentando inferiorizar as características do cabelo crespo.

Em 2020 eu recebi diversos ataques virtuais relacionados à falta de definição do meu cabelo, predominantemente 4c e essa se tornou mais uma pauta urgente para o TIPO4.

Estamos em 2021: ampliando as discussões

E chegamos a 2021. Me sinto amadurecida pelo processo! Cresci junto com o cabelo e hoje espero conseguir ampliar as discussões. Quero sair do razoável e questionar mais a fundo sobre os mitos que cercam o nosso cabelo crespo. Seguimos juntas?

Agora me conta aqui: desde quando me acompanha? Vamos continuar essa conversa!

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