Notas sobre a nossa existência.

Me entender mulher negra não foi como acordar num belo dia de domingo, enaltecer meus fios crespos, sentar pra tomar um café numa varanda luxuosa, pensar em toda a estrutura social que me cerca e dizer: “Está tudo bem!”.
Não foi uma lida fácil e ainda não é. Reflete em todos os âmbitos de uma vida pautada em provar e se provar boa o suficiente para aquele emprego ou profissão, para aquele curso, aquele grupo, aquele relacionamento, aquela casa e aquele padrão de vida, por exemplo. É sobre ter que ensinar às pessoas que me cercam a afirmar minha beleza sem precisar usar apostos. É sobre educar diariamente a respeito do que você não deve me dizer, mesmo não sendo a responsável por isso, ou sobre reconstruir minha própria imagem dentro do meu próprio espelho.
Distante te toda a cordialidade e uma suposta democracia racial existe um povo historicamente silenciado, uma cultura demonizada e um gosto amargo de desdém que me chama de vitimista. E se eu choro as pressões psicológicas, o medo das estatísticas, as opressões estéticas e os sentimentos tristes de ser quem sou é porque alguém um dia me disse que não era suficientemente bom ser eu.
A gente não só morre pelo cano do revólver. A gente morre todo dia quando precisa lutar pelo direito de continuar vivo. A nossa existência é um ato político, a nossa voz é revolução e nós vamos gritar até que nos ouçam: PAREM DE NOS MATAR!

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